Missão cumprida

foto de oleksandr texto andrea missao cumprida

Quantas vezes percebemos jovens que não sabem o que fazer no futuro? O dilema de escolher um curso universitário vem à tona à medida que se aproxima o final do secundário. A depressão, a ansiedade, a preocupação, as crises de pânico, o medo do vindouro. Vivi algumas dessas coisas com a minha filha.

Como pais, apesar de não sabermos nada sobre Gap Year, nunca o termos feito, não conhecermos ninguém que assim fizesse, decidimos que seria uma solução adequada a ela para que pudesse ter numerosas experiências que a fizessem crescer, sobretudo fomentando o autoconhecimento. Reagiu muito mal aquando da proposta, achava perda de tempo. Deixámos a escolha na sua mão, recomendando que ouvisse opiniões de muitas pessoas, da sua idade e mais velhas. O seu medo? Sair da escola e não ter mais vontade de ir para a universidade. Porém, os exames nacionais estariam válidos por dois anos, dando-lhe a chance de se candidatar pós Gap Year.

Este é um ano off entre o secundário e o ensino superior, também denominado ano sabático. Hoje existem fundações, concursos, associações, bolsas, fóruns sobre o assunto. A quebra da rotina, a saída da zona de conforto, o contacto com outras culturas e pessoas, as aventuras, os imprevistos, tudo se traduz em aprendizagem.

18 anos, a idade perfeita. O meu filho acaba de embarcar também na aventura, depois de ter integrado um acampamento na Alemanha e outro em Portugal, estará um mês em São Tomé para fazer voluntariado numa associação que atua com vidas humanas, não só curando feridas físicas mas também emocionais, a MPC. Depois disso, a viagem será mais extensa, três meses no Barco Logos Hope, embarcação da OM Ships, fornecendo ajuda e assistência comunitária, objetivos do projeto. Neste caso, a tripulação internacional é voluntária, originária de 60 países. A língua não será barreira, pois domina o inglês. A maior livraria flutuante do mundo oferece mais de 5.000 títulos aos vários portos que o navio percorre. Durante a sua estadia prevê-se permanecer em Madagáscar e Moçambique. 8 horas por dia, 5 dias de trabalho. Suor, lágrimas e saudades. Aprendizagens sem fim.

O coração dos pais fica apertadinho e a carteira mais vazia pelo patrocínio das viagens, no entanto, filhos mais conscientes do seu potencial, das suas limitações, mais felizes, mais convictos das áreas que gostam. Este é um investimento na vida TODA que pode definir o rumo de forma incrivelmente diferente.

A minha filha não foi a mesma depois de estar um mês na Guiné Bissau com os Semeadores de Alegria, exposta a várias situações, desde permanecer uma semana numa ilha onde não existe eletricidade, dar lições a miúdos, pintar uma escola numa tabanca, descarregar um contentor de donativos, preparar uma festa de Natal, viajar num barquinho caótico com pessoas e animais (que avariou). Depois, usufruiu de uma formação de liderança juvenil no Brasil e esteve semanas como voluntária no Desafio Jovem que atua na restauração de vidas ligadas às dependências. Tirou a carta de condução e iniciou-se no contexto empresarial. Entrou na universidade de forma leve. Nunca mais crises de pânico ou ansiedade. Foi a melhor aluna do seu curso, mesmo sendo uma trabalhadora estudante. Com 22 anos, tem as suas metas definidas e lidera uma equipa de quatro pessoas.

Se hoje alguns dos problemas com a juventude derivam da dependência dos telemóveis, jogos online e redes sociais que ditam as modas, porque não promover atividades que os façam ver a vida de modo correto, entender que para atingir metas há que se empenhar, que as coisas não caiem do céu e que o futuro pode ser feito à sua medida? Sem imposições, deixando nas suas mãos as decisões de modo criterioso, conscientizando prós e contras desta aprendizagem pela experiência. Quem sabe, o Gap Year se constitua uma alternativa para resolver a frustração de não ter entrado no curso universitário desejado, por algumas décimas. Um ano não off, mas on. A responsabilidade irá com certeza crescer. Ganho de skills, tempo de reflexão e inspiração. O foco irá nascer, naturalmente.

É esta a esperança. Filhos contentes, inteiros, pais satisfeitos, certos da sua missão cumprida.

Se gostou deste texto, partilhe-o.
9º, pertence à série de 12 textos sobre autoestima.

Leia o texto anterior:
https://www.andrearamos.pt/o-brasao-da-autoestima/

Assinatura-Andrea-Ramos

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo em breves citações com indicação da fonte, sem prévia autorização da Autora.

Partilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos Relacionados

É Natal na cidade

No coração da cidade o vento natalício corre nas veias dos comerciantes e conduz as folhas das árvores ao infinito. Vento de outono que não leva pessoas para o comércio tradicional. As grandes cadeias deliciam

Leia mais »

Artigos Recentes

Redes Sociais

Scroll to Top