
Celebro os avós. Os meus e os dos outros. Os que existem e os que existiram.
Os meus não contavam histórias, eles faziam a história, viviam a sua história, a de um tempo em que não havia férias porque o tempo era sobretudo trabalho duro, no campo. Havia tempo para rir, para entreter, ter o cão à porta e o cão de caça. Tempo de matar o porco e febras assadas na brasa.
Tempo não houve para eles irem à escola, mas a escola da vida ensinou-lhes a olhar o sol, a perceber o dia a dia, a entender os momentos e a serem felizes com o que tinham, com o que construíram – juntos. A comer o pão do forno a lenha com chouriça em cima, produzida de modo caseiro, isso mesmo, com a tripa do porco. E uma panela de ferro podia fazer sopa e escoado cada vez que lhe apetecesse, não fossem as brasas vermelhas atrevidas.
Os meus nem sempre sorriam porque a vida era difícil. Semear o milho, mondar a horta, apanhar as batatas, regar as couves, ir à lenha, trabalhar na fábrica. Andar de mota, contar os escudos. Ir à festa de quando em vez, ver a romaria passar, ter retrete em vez de casa de banho e dar comida aos porcos. O milho moía-se e algum ia para as galinhas transportado no bolso do avental. Mas cada vez que sorriam enchiam a casa pobre que era afinal rica de amor e de vida.
Os meus não me iam buscar à escola, porque ia para a escola a pé. Mas estavam sempre à minha espera. Uma avó que fazia tranças perfeitas e comida que o estômago ainda sente o sabor.
Os meus pisavam uvas que aprendi a pisar. Vindimavam e era sempre dia de festa, de vizinhos, de amigos e de vontade de trabalhar mais um pouco para ter o vinho na adega.
Os meus tinham ar de avós, voz de avós e mãos de avós. Mãos prontas para dar, mãos marcadas pelo tempo, pelo dom de trabalhar e ganhar o pão. Diziam que eu era a menina deles. Mais do que avós, foi a quem chamei de mãe e de pai, cada dia que existiram nos meus dias.
Os meus deixam-me hoje o coração apertado e a mente encolhida por não poder escutar-lhes a voz. Mas enchem-me de orgulho por saber que os tive e os terei para sempre. Mais do que uma história ou uma lembrança, um para sempre de avós que serão sempre os meus.
Andrea Ramos







