Água Marinha

agua marinha 3

«Ha moce a históira da alagartada? É nã queria acarditar q’ando acordê! Atão fiquê aflita, de pedrinha na mã, coisa que nunca tinha visto.

É almariada, má que jête cã’quela coisa má linda assustê-me da cor que lá vi perguntê à tua bisavó p’ra quê dava mázi magana nã me contou.

Foi à nha custa fiz dela nha aliada… Amódes q’iste é assim nha filha, já nã te posso contar má nada quando ires abrir a cáxa tua mã já nã pertence cá.

O fenomo tem q’andar de mã em mã benite segrede de geraçã em geraçã. Assim te dêxo estas letras toma cuidade contigue, adés.»

Maria, mão no caixão, gotejando…morena, cabelos demorados, atentava a voz da tia. Idade mole, vivacidade no querer. Cedo descodificava o invólucro da pedra maravilha. Sobressaía combinação ardente, ofusque-trepidez; determinada, perpetuaria o enigma.

Sentia o azul frio. Descalça nas amásias pedras do caminho, Maria aprendeu a sorrir. Medrava radiosa de pedra no bolso.

No orfanato, solitária, indagava o futuro. A camarada acatava-lhe confissões. Berilo na almofada, de olhos fechados, escutava a canção de ninar da mãe, que a inspirava a pertencer ao mundo.
Maria revigorava ao entender os elementos da pedra preciosa. Os colegas chingavam, nenhum deles atingia tamanha cintilação.


E para serenar, gostava de estender-se em minúsculos grãos, nariz submisso ao astro-rei, enlaçada na brisa irmã. Alheava-se no azul mar, ousava comparações.


O mistério não paralisou. Adensava-se.



Maria relia a carta, fixava a preciosidade e indagava o seu coração, que fazia ouvidos moucos.

A Água-marinha escoltou-a até se tornar mulher esbelta, polida, desejada.

Maria texto de andrea ramos foto de lokman sevim



Abriu-se a janela da costa. A noiva entrou pela fenda da agemada, céu azul, mar cerúleo esverdeado… Maria resplandecente, alvo e azul mar no trono superior, envolto em níveas rosas. A felicidade estampava-lhe o rosto. A promessa anunciava enterrada para sempre a solidão.


O coração explodiu. Maria entendera o segredo. A frieza do azul, parte da vida mortal, o brilho, opulência da paz que tanto procurara.

A tranquilidade navegante em águas revoltas, recém-chegada! O seu íntimo descobriu o azul harmónico!

A essência da união desabrochou. Era uma menina: Água-marinha.

Foto: internet

Assinatura-Andrea-Ramos

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