A vida inteira à espera

a vida inteira a espera. andrea ramos foto andrea piacquadio

Estamos sempre à espera. Passamos a vida inteira a esperar! Esperamos para nascer e para morrer. Esperamos nove meses pelo filho que há-de nascer. Pelas surpresas que são mesmo surpresas, por aquelas de quem esperaríamos e também das que nunca chegam. Esperamos não «ter pelo na venta».

Esperamos o autocarro, que a chuva não estrague o encontro, que as manchas não sujem o vestido de cerimónia. Que a gratidão nos levante o ego. E muita, nunca chegará. Esperamos que os impostos não nos suguem «até ao tutano». Esperamos pelo marido, pelos filhos, pelos amigos. O fiel cão espera sempre por nós, mesmo quando não lhe damos grande atenção. Esperamos que ela dê a mão, o coração a galopar e que o carinho venha deslizar na pele.

Esperamos com paciência e sem ela. Esperamos que um dia a outra pessoa mude e descobrimos o quanto precisamos mudar. Esperamos que o sonho íntimo, não revelado a ninguém, se cumpra. Esperamos pela comida no restaurante e ficamos azedos quando demora mais um pouco.

Esperamos ter sorte na vida. Que a avó faça a comida que mais gostamos. O aroma do café pela manhã, sem temer a rotina.

O cego espera por esmolas. Esperamos não dar gorjetas, mas damos. Esperamos o golo de penalti para termos a vitória já tão sofrida. Esperamos «plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro». Que a fechadura abra a porta. Não gostamos de esperar e pronto!

A mãe espera que seus filhos não esqueçam o que ela fez por eles. O pai só quer um abraço apertadinho pelo desgaste de trazer comida para a mesa. A esposa chega a casa na expectativa que a louça se lave sozinha, a roupa como por milagre apareça passada a ferro, só para ter mais tempo para os filhos.

Esperar dói. Faz-nos mais resilientes.

Esperar a árvore que dará a melhor fruta do ano. O encontro com o dinheiro no chão e ter a «casa Portuguesa, com certeza» para morar. O porco da matança.  A convicção de que não existe traição. Que os filhos não batem nos pais. Esperar que os miúdos não se tornem bullys, vagabundos.

Espera-se que a escola forme gente cívica e que as famílias ensinem valores. Espera-se ver a taxa de juro baixar. Que Deus nos socorra na aflição. Espera-se que os ‘tugas’ não tenham de andar com os filhos às costas a plantar batatas para comer. Esperámos com dor que o vírus nos deixasse em paz. Esperamos vencer os nossos medos. Que a ferida cicatrize. Esperamos ter certezas de que sobreviremos no meio da incerteza.

Esperamos o «amor para a vida toda» como a Carolina.

Assinatura-Andrea-Ramos

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10 opiniões sobre “A vida inteira à espera”

  1. Célia Sofia Pimenta Domingos Cruz

    Esperamos…esperamos por tudo e mais um par de botas…mas a única espera que valerá sempre a pena é aquela que diariamente todo o crente anseia…a vinda de Jesus, a esperança na vida eterna!

    1. Andrea Ramos

      Muito obrigada pelas suas palavras, Bina, são sempre uma motivação para continuar a escrever. Abraço!

  2. Liliana Saraiva

    Olá Andrea, obrigado por sempre nos ajudar a refletir.
    Espero que se encontre como eu, lutando a cada dia para viver o “quem espera sempre alcança “ e não o “quem espera desespera”
    Abraço de urso.

    1. Andrea Ramos

      Querida Liliana, muito obrigada. Juntas na vida, nas letras e na vontade de ir mais além. Abraço.

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