A marmita e o Monopoly, dois aliados

Vanessa Loring marmita
Vanessa Loring

Vislumbro o tempo das vacas magras e tenho a marmita à mão, pois esta já não a dispenso. Dá-se sugestão aos filhos de abandonar o fast-food e comer a alface que a horta gerou de graça. Vamos às compras à praça que é mais barato, mais biológico. Deixámos a lógica e começámos a pensar fora da caixa. Há quem nos queira encaixotar. À resma, é mais barato.

Andamos doidos com a ebulição do valor de arrendamento e preço das casas. O melhor será as famílias portuguesas treinarem Monopoly. Lembrando o gigante Adamastor que assustava marinheiros, alguém intenta levar os tugas à hipoteca e sequencial falência. Pensemos que a sorte se chama trabalho e a música no carro a estratégia. Sem usar dados que ditam o número, usamos a cabeça para pensar e gerir a vida a partir de todo o nosso potencial.

Criem-se trabalhos próprios. Plantemos raízes profundas de um país regado pelo mar. No jogo, podemos ir parar à cadeia, na vida a prisão da mente. No jogo, o estacionamento grátis dá-nos dinheiro. Nas cidades, pagamos estacionamento para poupar as pernas e não deixar o carro a quilómetros de distância. Quando alguém pára na cadeia está salvaguardado de calhar nas propriedades de mais valor, o problema são os hotéis e casas adicionadas. Sabemos disso à fartazana. Os presos reais estão com casa paga, um teto para viver, comida sem esforço e nem precisam de aquecer a marmita. Quem anda à solta labuta, pagam elevada carga de impostos, precisa de suar o comer e noites sem dormir para ajudar os filhos a ser alguém na vida.

E volto a pensar na marmita, uma escolha saudável que posso fazer. Ontem foi redon (restos de ontem). E quando levo a marmita evito a tentação da sobremesa no restaurante. Uma porção regrada feita à minha medida, ao meu gosto. Poupo na carteira, gasto as reservas do corpo, dessas tenho para dar e vender. Em vez de pagar o ginásio, subo e desço escadas, à medida que planeio o almoço do dia seguinte.

Acabou o tempo das vacas gordas. A estratégia do José do Egito foi recolher no tempo de fartura para ter de reserva para os anos que se seguiriam de fome. Fez stock de trigo. Um Portugal de terra para plantar mas com terrenos baldios, casas a cair, o povo a comprar tudo em vez de semear para colher e à rasca para recolher do celeiro da Europa.

A marmita é uma velha amiga, também do ambiente, lavo os talheres para o dia seguinte em vez do plástico. Aliás, treinamos em família aos nutrientes, decidimos mudar a partir de nós. Fazemos receitas dos avós. Os nós que se geram na cabeça, desfazemo-los a brincar.

A casa levamo-la às costas. Já que as mudanças são uma constante no nosso país, começamos pela mente. Uma mente consciente, urgente, dedicada a fazer gente pensante, resoluta. E a luta ainda agora começou. Jogamos jogos de tabuleiro, damos mais valor à família do que ao dinheiro. Entrelaçamos as mãos como sinal esperançoso para os nossos vizinhos.

Sei que a marmita não é um tema popular e ando a tentar ganhar o jogo que é só um jogo. O objetivo é ver quem fica mais rico e até me calha a carta da sorte. Quando vejo as noticias parece que andam todos de tabuleiro Monopoly na mão, negócios, cobrar aluguer o mais caro possível, exploração para lucrar.

O jogo deveria permitir construir pontes para dar abrigo aos perdedores. Ando a congelar sopa, a economizar tempo, a idealizar um novo modelo de marmita e como receber os royalties. Não jogo na loteria, não vou a casinos. Aposto nos valores da minha família, jogo os dados da emancipação. A minha sorte chama-se trabalho. Talvez invente a palavra marmitar. Hoje, distribui várias aos pobres e ganhei o dia.

Assinatura-Andrea-Ramos

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