A escrita, uma paixão

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Escrevo porque me apetece. Escrevo, na verdade, desde o século passado.
Sim, é uma paixão. Sentada na cama, enquanto adolescente, escrevia o meu mundo. Escrevia em cadernos. No tempo em que não havia internet, não tinha computador e os telemóveis viriam muito à frente. Certa vez, escrevi uma carta a Deus, algo sincero. Sei que a coloquei debaixo da almofada, ninguém poderia ver! Uma conversa para quem me poderia escutar, acreditava, um lamento íntimo.
Na escola primária, as composições eram enormes e praticamente, sem erros. Mais à frente, já mais crescida, em turma, tínhamos de nos acercar de vários tipos de texto. Um deles, a carta de amor. A que eu escrevi, começava mais ou menos assim: «A noite cai e a lua brilha tanto como os teus olhos em noite de lua cheia.» (Tenho de o procurar!)
Poemas começaram a nascer como cogumelos e neles depositava emoção, palavras que me entendiam e não me julgavam. Palavras que autorizavam o derrame de lágrimas. Que me faziam companhia nas noites em que me sentia só. Aos 12 anos, um texto meu foi publicado numa revista de cunho cristão. Com 14, 15 anos li muitos dos meus poemas em igrejas. Depois, fui solicitada para ler poemas de minha autoria e não só, em vários casamentos.
Mais tarde, diziam-me que tinha de escrever um livro de poesia e não o fiz. Decidi partilhá-los no Facebook (escrever porquê), acreditando que muitas pessoas se iriam identificar.
Quando participei na Revista Evellis, o seu autor, Ademir, disse-me para escrever crónicas, pois acreditava que eu tinha jeito para este estilo. E dai nasceram as «crónicas da Né».
Depois, surgiu o convite para participar num livro em coautoria. Disse logo que não, não seria eu a pessoa indicada. O meu problema? Eu não acreditava! Pensava que ninguém iria gostar do que escrevia. Após a insistência, anui. Foi uma experiência gratificante.
Através de outros textos, desafios, participação em workshops de escrita, revistas, escrever em sites e páginas, fui entendendo que deveria escrever mais. O feedback era positivo e aos poucos, fui começando a acreditar. Entendi sobretudo, que poderia incentivar outros a escrever e ao mesmo tempo, tentar progredir.
O livro (Muda) O Meu Nome, 2020, foi uma experiência incrível. Ainda não decorreram dois anos do seu lançamento e quase 1500 exemplares foram vendidos. O que mais me surpreendeu é que tanto adolescentes como adultos se reveem na história. Hoje, pelo relato dos leitores, sei que a autoestima é deposita em cada pessoa que lê esta obra.
A marca solidária é impressa em cada livro. Um distintivo que faço questão, apesar do muito trabalho, no entanto sei que ajudo vidas e isso é o que importa e não o caminho do sucesso.
O Zezé nasceu há vários anos. Foi numa escola de 1º ciclo onde desenvolvi um teatro de sombras. Mal sabia eu, que mais tarde, iria pegar nesta história e incentivar muitas crianças a uma vida equilibrada e mais saudável, andando aí nas escolas de Portugal. Zezé, o miúdo guloso, 2021, serviu de base, este verão, para o trabalho infantil da Câmara Municipal de Ponte de Sor, com quase 400 crianças. O ator e músico João Canhoto encarnou o personagem e a música criada por ele, trouxe alegria e fulgor às crianças, naquela tarde, junto ao rio.
O meu mundo… de papel, 2022, uma história que regará sonhos de pais e filhos, motivando-os a cumprir os seus sonhos de vida. Escrevi-a no início deste ano e nem foi com a intenção de fazer um livro! Lia-a a alguns adultos online e para minha surpresa, fez-se um barulho chato, daqueles que incomodam. Duas pessoas estavam a chorar. Falaram-me do impacto que a história do Simão lhes causou. E assim, fui incentivada pela escritora Leonor Tenreiro a fazer este livro.
Chorar. Muitas pessoas choraram quando lhes li poemas ou textos que escrevi. Um caso desses foi o grupo de senhoras MyMoyo quando li um dos meus textos que mais gosto e que integra a escrita motivacional.
E assim, depois de três livros infantojuvenis publicados, sei que a escrita não me abandonará. É minha companheira nas noites que não se dorme, nos pensamentos que teimam em ficar no papel. Através desta experiência e daquilo que os meus leitores me dizem, faz-me entender a minha voz literária. Ela tem impacto e isso é o que me incentiva a continuar. Ontem, uma amiga enviou-me uma mensagem e foto da sua filha mais velha: « Olá! A M… vai apresentar o teu livro no final de novembro, para um trabalho de Português. Depois digo como correu!». Não é espetacular?
Duas editoras portuguesas, uma distribuidora em PT e Espanha e duas editoras no Brasil, já mostraram interesse em trabalhar comigo, fizeram-me propostas. E tudo isto para mim é incrível.
E quando não se desiste, quando se trabalha de forma resiliente, algo há-de nascer. E foi assim, que ao longo dos anos fui entendendo o dom que Deus me deu. Foi um processo.
Recentemente, apeteceu-me chorar, ao ver uma crónica minha publicada no Jornal Público (Megafone).
A minha paixão pela escrita vem de longe. Mais histórias nasceram entretanto, devido a esta teimosia em casar letras e quem sabe, em breve saiam do forno…

Foto: Tirachard Kumtanom

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