Zeca

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ꟷ Cansado, eu? Sim, muito cansado, farto até. Fartei-me de a aturar. Ela fazia-me mal. Aguentei muito. Aguentei demais. Abusava da minha confiança, da minha dignidade. O meu corpo marcado ora pela fome, ora pela desgraça da violência. Eu vomitava de angústia, mas não me cansava. Fui louco, deveras louco.
A tua beleza finda agarrava-me, tecia-me camisola para me aconchegar no inverno. Inverno? Este é o inverno da minha existência.
As pernas cansadas ergueram-se.
ꟷ Não, não queriam colaborar, zanguei-me com elas, bati-lhes como se faz a um burro para ele andar para a frente. Estavam teimosas, gélidas do hábito de estarem encolhidas no velho sofá. Corri, caminhei, arrastei-me no chão. Olhavam para mim como se eu fosse um fantasma mendigo. Choveu-me em cima. O granizo batia-me na cara, parecia imitar as marcas do corpo. O vento percorria-me, umas vezes empurrava-me, outras dava-me para trás. Escolhi respirar mesmo sem vontade, preferi seguir adiante, mesmo com poucas forças. Não olhei para trás nem um segundo. Cuspi sangue como se fosse o meu último dia de vida, em que a morte me chamava, gritando. Nada me podia contrariar de fugir de ti. Fatigado, finalmente, aqui aterrei. Solitário consciente. Desconcertado, mas convicto de que tinha que fugir. Vesti a minha melhor roupa. Aquela que não me deixavas vestir. O fato de treino, fica tu com ele, lava o chão com ele, aliás, lava a tua alma, pode ser que ela fique mais clara.
Os filhos que ela não me deu choraram, prantearam, ao verem esta minha figura. Não, não tenham pena de mim! Não sei se sou o culpado. «A culpa não morre solteira». Ela arrancou-me a felicidade das mãos, tirou-me a alegria da partilha de duas almas. Levou-me a voz embora para os confins do mundo. Sim, deixei de ter voz. As palavras que tu me amarraste, ou melhor, que eu deixei que amarrasses. As promessas do início, desfizeram-se como papel em água. O nosso ninho de amor transformou-se em terror. O cheiro nauseabundo do lar voava por cima das casas vizinhas. Davas-me água suja a beber. Fazias de quando em vez uma sopa de pedras negras do caminho. Os abraços ficavam sempre para depois. Os beijos do começo, recordo até com desdém. O sabor desses beijos toldaram-me a saliva. Cosi para sempre os meus lábios com linha de costureira, sabes para quê? Para não ter esse gosto imundo na boca.
Divaguei sim e não tenho saudades.
O cão seguiu-me e não me abandonou. Fiel amigo. Na viagem foi atropelado. Saudades crescerão como cogumelos.
Serei um viajante eterno. Um rumo direto à harmonia. Apanharei o comboio da bem-aventurança. O comboio da liberdade. E escusas de me procurar. Não tentes sequer pensar em mim ou desejar pôr-me os olhos em cima. Não te dou esse direito. Bruxa, bruxa doida varrida. Querias usar-me? A minha reforma servia-te como fato à medida?
A tosse veio fazer-lhe companhia ao final do dia. A dor do peito crescia. Doente, Zeca, teimava em não deixar o vício que lhe apertava a garganta.
Falou com os veraneantes com quem se cruzou, pedindo alguma comida e dinheiro para o bilhete.
Esticava agora as pernas na cadeira em frente. O café do amigo de infância abriu-lhe as portas. A estação de comboio aguardava-o. Tentação? Sim, queria lamber o trilho, os carris, porém o amigo contrariou-o, impedindo de se suicidar.
Esperava sem paciência o comboio que teimava em não chegar. O dinheiro perdia-se nos bolsos rotos do orgulho. E desesperado, fumava o seu cachimbo. Vestida a sua melhor roupa.
Um copo de água era muitas vezes, a única comida em cima da mesa. Porque a comida quase não passava na garganta estragada.
Poderia ele, o Zeca Do Amor Perfeito ter escrito um conto de fadas, onde o amor seria cego? Foi cego, surdo e mudo. Escreveu ele, porém, o seu filme de terror.
Foto: internet

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