Carta aberta aos professores

Professor tima miroshnichenko
Tima Miroshnichenko

Vejo professores desmotivados. Quero incentivá-los a não desistir da profissão que escolheram. Observo o cenário deveras difícil. Pergunto o que a sociedade está a fazer pela classe docente?

Depois da vontade de ensinar ou sonho, preparam-se durante anos para ensinar. Diversas vezes não são apenas professores, são quem percebe o potencial no aluno pobre, são quem nota as dificuldades e circunstâncias dos estudantes. A mim, uma professora curou-me feridas quando caí na rampa da escola. Um professor escuta, dá do seu tempo, esforça-se, vê mais além.

Os professores estão cativos de uma sistema, que na minha singela opinião não funciona. Os alunos vêm a escola como um sacrifício, lugar de conteúdos de aquém, quando os conteúdos deveriam incentivar ao empreendedorismo, capacitar, de forma que as mochilas fossem de esperança e sabedoria.

Porque não fazemos alguma coisa?

Pais, se a escola é tão importante para o futuro dos filhos, vamos elogiar professores, ajudá-los a ajudar. Façamos cartas de reconciliação, dar feedback positivo aos docentes. Se reconhecermos que o professor é um bem que temos no nosso país, então podemos valorizá-lo. Que os estudantes façam do espaço escolar um lugar de crescimento comum!

Se há classe que tem mostrado trabalho em equipa, resiliência, adaptabilidade, é esta. Olhem-se as greves, a insatisfação, os quilómetros, o distanciamento da escola, a imensa carga letiva, a burocracia e tudo o que têm vindo a reclamar. Olhemos para os professores como aqueles que se erguem e lutam pela escola pública.

O que estamos a fazer por eles?

Escrevam-se bilhetes elogiando cada professor, dêem-se abraços, palavras de incentivo, encorajamento. Que alunos percebam o que podem fazer pelo professor. Criem-se mananciais de turmas engajadas num propósito comum. Tal como uma planta que carece de rega e sol, nutrientes e proteção da geada. Se este é o tempo do frio gélido, façamos cobertores que aqueçam o coração dos professores.

Que cada turma desenvolva o seu lema, escreva os valores pelos quais pretende enveredar, trabalhar e fazer acontecer. Que as novas gerações entendam o verdadeiro papel da educação. Um país sem educação é um país de esperança enviesada, que definha na mesmice.

Quem não recorda um professor que foi relevante na sua vida? Um mentor, um amigo, um mediador? Tragam-se histórias de superação, do tempo passado que ensina o presente e faz ambicionar um melhor futuro.

Que as redes sociais inundem de narrativas auxiliadoras da memória coletiva. Que essa memória produza sementes de vontade, que geram professores capacitados, habilitados, motivados, esperançosos, num país que precisa de avançar.

Que a massa estudantil conceba correntes de reconhecimento público, de emancipação dos docentes. Que se cantem músicas de alento. Que o apoio se perceba no olhar dos estudantes. Que as associações de pais premeiam professores. Que as direções escolares promovam uma cultura saudável, organizada, flexível e autónima. Que se estabeleça um tempo de reflexão sobre o que mudar nas escolas, nos currículos em prol de todos. Porque sem professores seremos paupérrimos, alheados.

Ambicionamos desenhar o futuro do nosso país? Façamo-lo com os professores. Queremos um futuro melhor para os nossos filhos? Estudemo-lo com os professores. Desejamos jovens que alcançam a meta? Precisamos de ter lá os professores a gritar «tu consegues».

Não queremos um conhecimento estático mas sim, adaptativo tal como a sociedade. Se a gestão de emoções é tão importante, precisamos de dar o nosso ombro aos professores, de os escutar, limpar as lágrimas, escrever o rumo em colaboração. Voluntariemo-nos como povo. Eles conhecem os interesses e necessidades dos nossos filhos. Conhecem a fundo cada contexto familiar. As dores da separação, morte, depressão. Conhecem as pequenas vitórias, o esforço de cada aluno, os sorrisos, o potencial escondido. Eles têm respostas, estaremos interessados em sabê-las?

Assinatura-Andrea-Ramos

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5 opiniões sobre “Carta aberta aos professores”

  1. Elsa Mendes

    Verdade querida Andrea . Mas não apenas da classe docente, mas também de toda a restante equipa não docente que serve de grande apoio a esta classe que tanto respeito e admiro. Muitas vezes são as técnicas , auxiliares , que estão igualmente perto das várias realidades e conhecem tão bem as necessidades de cada criança. Professores, educadores, tutores legais, directores das instituições, terapeutas, animadores, monitores de tempos livres (AECs, AAaFs e CAFs), enfim, todos os intervenientes que compõem a comunidade escolar são IMPORTANTES!A escola deve ser um local onde cada vez mais se desenvolve um trabalho de equipa em prol de um futuro melhor para todos os alunos. Estamos no caminho mas ainda há MUITO a fazer!

  2. É importante trabalhar-se a visão coletiva a respeito do professor, para que não seja vista apenas como mais uma profissão, mas como uma missão (por parte destes) e uma posição honorável (por parte de toda a sociedade).
    Diminuir-se a burocracia, dar-se a possibilidade destes trabalharem localmente, melhores salários e progressão de carreira e formação para contínua atualização.
    Obrigada pelo texto!

    1. Andrea Ramos

      Honro e honrarei os professores. Acredito no se trabalho, empenho e dedicação. Quanto mais puder fazer para incentivar ao respeito por cada professor, farei.
      Muito obrigada pelo comentário, o qual me incentiva a escrever.
      Beijinhos

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