Somos a sociedade de quê?

foto de cottonbro studio 1
Cottonbro Studio

Gosto de assistir a filmes baseados na realidade. «A sociedade da neve», um filme que relata a sobrevivência aparatosa de alguns ocupantes do avião uruguaio que caiu nos Andes em 1972. Eu tinha conhecimento deste facto, o que aguçou o interesse. Os atos de canibalismo permitiram que hoje, conheçamos a história.

Se queremos estudar sobre resiliência, aí está um exemplo. Se pensarmos em estratégias de sobrevivência em meio à agreste natureza, reteremos algumas lições. Mesmo deparando-se com a morte dos companheiros, um grupo manteve-se coeso, até quando a esperança teimava em fugir.

Hoje, através da tecnologia avançada, o grupo seria encontrado rapidamente.

Quantas vezes nos achamos coitadinhos. Ao nos depararmos com situações mais graves, desvalorizamos as outras. E aí começa a chave da gratidão. Quanto tudo está bem nem pensamos nisso. Assim, esta noite, pensei durante horas no filme, revendo cenas e dei  por mim a dar graças por deitar-me numa almofada fofinha, numa cama, num quarto quente. Deitei a cabeça consciente de que as benesses em Portugal são tantas e de que preciso de ser grata todos os dias pelo que tenho na minha mão e ao meu alcance. E assim refiro-me aos detalhes.

Claro que nem tudo está bem neste país. Porém, ao sairmos deste canto, entendemos que Portugal é uma casa, é um lar, é um banquete, é um postal, é uma mãe que abriga e um pai sorridente com os filhos às cavalitas.

Quem quer trabalhar ainda encontra um emprego, quem veste a camisola ainda é reconhecido. Quem passa por doenças ainda tem médicos, medicamentos. Somos um povo pacifico e isso ninguém nos tira. Não é porque acolhemos imigrantes que vamos ficar mais pobres. Eles são uma força importante de trabalho, veja-se nos campos, nos restaurantes, nos hotéis, na medicina, nos transportes. Aprendemos uns com os outros! Talvez se vivêssemos em guerra com os nossos filhos mortos nos braços, entendêssemos melhor que o mundo é casa e que o planeta nos foi dado de graça. Não pagamos para ter as longas horas de sol. Enquanto passamos a vida a fazer queixas, deixamos de olhar para o que é bom, agradável e o quanto deveríamos agradecer.

Também estou grata porque tenho liberdade de pensar, porque podemos enterrar os mortos dignamente. Se este ano celebramos 50 anos do 25 de abril, quantos cravos deveríamos plantar no coração e mente dos nossos conterrâneos?  O cérebro beneficia pela gratidão sentida, seremos todos mais felizes, com certeza.

Quando lidamos com stress e traumas, há uma escolha a fazer. Contar as bênçãos ou olhar para o problema. A paciência cresce na medida da gratidão. A gratidão, dizem os estudos, fortalece o nosso sistema imunitário.

Se nada à nossa volta é perfeito, também o sabemos, quando olhamos para o nosso eu, e ai, conscientizamos de que podemos fazer sempre melhor.

Não vivemos em condições extremas, como os sobreviventes, não precisamos de nos comer uns aos outros. Sabemos que o resgate demorou dois dias e não um como o drama mostra. Não temos uma avalanche a enterrar-nos. Respiramos e é de graça. Nas declarações deles, afirmaram que sobreviveram porque não perderam «o senso de humor, a solidariedade e a fé». Talvez seja disto que precisamos. O seu feito foi celebrado como uma aventura e eles, heróis numa jornada.

Somos os heróis desta era, do nosso Portugal. Fazemos a cama de lavado, a água corre na torneira e pode beber-se. Resgatemos o senso de humor, aprendamos a viver de forma solidária e tenhamos a fé de que um dia seremos resgatados dos nossos males, das doenças, da morte. Seremos os pais que ensinaram os filhos a socializar na escola com os filhos de culturas diferentes. Um povo que cuida do planeta. A geração que deu a mão a povos condenados à morte.

E acordo grata, porque tenho uma televisão em casa, um sofá para ver um filme, com o coração em paz. Tomo o café a fervilhar na mesa da cozinha e agradeço o pão com manteiga. O sol já nasceu. Mais um dia para aprender a gratidão nesta aventura que se chama vida.

Assinatura-Andrea-Ramos

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo em breves citações com indicação da fonte, sem prévia autorização da Autora.

Partilhe:

16 opiniões sobre “Somos a sociedade de quê?”

  1. “…Em tudo dai Graças …”

    Sejamos GRATOS!
    Bem haja pela boa reflexão.
    Deus continue abençoar e usar para Sua Glória.

    1. Andrea Ramos

      Muito obrigada!
      Os comentários são para mim óleo da motivação para continuar a escrever…
      Um beijinho para vocês!

  2. Carla Paias

    Como sempre espectacular!
    Quando li deixou-me a pensar que a vida nos passa ao lado e que realmente não valorizamos o bom que temos .
    Obrigada por nos “acordar “ e nos por a pensar !

    Que faça o mesmo com todos que a lerem !
    Obrigada!!

    1. Andrea Ramos

      Muito obrigada!
      Haveremos de ter lembretes como este para não esquecer todas as dádivas diárias e claro, começar a valorizá-las.
      Um enorme abraço!

  3. Acordei com o mesmo pensamento! Grata por tantas pequenas (grandes) coisas!
    E também sou grata pela forma como escreves!

    1. Maria Manuela Filhó

      Olá Andrea

      Vou ver o filme com atenção.
      Adorei o teu texto.
      Concordo plenamente com as tuas palavras todas. Sou muito grata ao país onde nasci Portugal e sinto-me abençoado por ter tudo o que tenho.
      As crianças estão bem? Enormes, claro.
      Um grande beijinho para vocês ❤️

    2. Andrea Ramos

      Obrigada, querida. Isso mesmo, as penas coisas fazem a diferença.
      Beijinhos e obrigada pelas palavras.

  4. Joana Correia Momade

    Não podia concordar mais!!!
    Espero que este texto seja encontrado por mentes que alimentam, ainda nestes dias, a intolerância que não nos é própria enquanto portugueses, e a visão seja alargada pelo Amor.

  5. Rute Fernandes

    Grata por nos avivares a importância da GRATIDÃO e te ‘perderes’ nos pequenos detalhes da vida. Excelente reflexão!

    1. Agradeço te por tudos os insinamentos que partilhas connosco! E quanto é importante a Gratidão nas nossas vidas! Beijinho grande com carinho e gratidão 🙏🏻😘❤️

    2. Andrea Ramos

      Beijinhos amiga, sou grata por ti e pela criatividade. Partilhar o que escrevo é uma oportunidade para passar valores, que anda aí perdidos na sociedade…

  6. Elsa Mendes

    A escrita da Andrea relembra nos a cada dia as “coisas” tão importantes como valores que se estão a perder no tempo. Neste artigo acerca da sociedade em que vivemos , é de facto um “lembrete”! É necessário sermos GRATOS 🙏🏻Em TUDO!!
    Só o simples respirar já é motivo de gratidão 🙏🏻
    Tão bom ler o que partilhas ❤️ ✍️
    Obrigada 🙏🏻

    1. Andrea Ramos

      Muito obrigada, querida Elsa! É bom poder partilhar textos, ler, escrever para não esquecer…

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos Relacionados

Ser Filho de Deus

Quantos julgam que o são sem entenderem que, para o ser, há que acreditar na obra da cruz, viver com Cristo, experienciar um novo rumo. João 1:12 – “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes

Leia mais »

O dia a seguir

Vejo o sol nascer e tenho vontade de renascer. Vejo a família a crescer como a nata do leite a ferver. Vejo os livros na estante com vontade de os ler. O meu dia seguinte,

Leia mais »

Poema do meu país que se chama Portugal

Sentimentalismo, emoções amplificadas, a poesia, o escorrer da alma. Desde 1999 que o Dia Mundial da Poesia se celebra anualmente. O acentuar das palavras que contrasta com palavras ocas. Apoderarmo-nos do poder da linguagem para

Leia mais »

Artigos Recentes

Redes Sociais

Scroll to Top